A sepultura, Guy de Maupassant

A sepultura*

Guy de Maupassant

Tradução: Jaimir Conte

 No dia 17 de julho de 1863, às duas horas e meia da madrugada, o guarda do cemitério de Bèziers, que morava num pequena casinha nos fundos do cemitério, foi despertado pelos latidos de seu cão encerrado na cozinha.

            Ele entrou logo na cozinha e viu que o animal farejava sob a porta uivando com furor, como se algum vagabundo tivesse rondado em volta da casa. O guarda Vincent tomou então seu fuzil e saiu com precaução.

            Seu cão disparou correndo em direção à alameda do general Bonnet e deteve-se precisamente perto do monumento da Senhora Tomoiseau.

            Um guarda, avançando então com precaução, percebeu logo uma pequena luz do lado da alameda Malenvers. Ele deslizou entre os túmulos e foi testemunha de um ato horrível de profanação.

            Um homem tinha desenterrado o cadáver de uma jovem enterrada na véspera, e ele o tirava para fora da sepultura.

            Uma pequena lanterna sem brilho, colocada sobre um monte de terra, clareava a cena repugnante.

            O guarda Vincent, tendo se lançado sobre este miserável, derrubou-o e atou-lhes a mãos e o conduziu ao posto da polícia.

            Era um jovem advogado da cidade, rico, bem vestido, de nome Courbataille.

            Ele foi julgado. O ministério público lembrou os atos monstruosos do sargento Bertrand e levantou o auditório.

            Sobressaltos de indignação se passavam na multidão. Quando o magistrado se sentou, ouviram-se gritos: “À morte! À morte!” O presidente teve grande dificuldade para restabelecer o silêncio.

            Depois ele pronunciou em tom grave:

            “Acusado, o que você tem a dizer em sua defesa?”

            Courbataille, que não quis advogado, levantou-se. Era um belo rapaz, grande, moreno, com uma cara simpática, de traços enérgicos, com um olhar penetrante.

            O público irrompeu em vaias.

            Ele não se perturbou, e começou a falar com um voz um pouco incompreensível, um pouco baixa inicialmente, mas que se afirmou pouco a pouco.

            Senhor Presidente,

            Senhores Jurados,

            Tenho poucas coisas a dizer. A mulher de quem eu violei a sepultura foi minha amante. Eu a amava.

            Eu a amava, não de um amor sensual, não de uma simples ternura de alma e de coração, mas de um amor absoluto, completo, de uma paixão extrema.

            Escutem-me:

            Quando eu a encontrei pela primeira vez, senti, ao vê-la, uma estranha sensação. Não se tratava de espanto, nem de admiração, não era o que se chama de amor à primeira vista, mas de um sentimento de bem-estar delicioso, como se eu mergulhasse num banho morno. Seus gestos me seduziam, sua voz me encantava, toda sua pessoa me fazia esperar um prazer infinito. Parecia-me também que eu a conhecia há muito tempo, que eu já a tinha visto. Ela tinha em sua pessoa alguma coisa de meu espírito.

            Ela se apresentava como uma resposta a um apelo lançado por minha alma, a este apelo vago e contínuo que depositamos na esperança durante todo o curso de nossa vida.

            Quando eu a conheci mais intimamente, o simples pensamento de vê-la me agitava de uma perturbação estranha e profunda; o contato de sua mão na minha mão era para mim uma tal delícia que eu nunca tinha imaginado algo de parecido antes, seu sorriso infundia em meus olhos uma alegria louca, tinha vontade de correr, de dançar, de me rolar no chão.

            Ela tornou-se então minha amante.

            Ela foi mais do que isto, foi minha própria vida. Eu não esperava mais nada sobre a terra, não desejava nada, nada mais. Não invejava mais nada.

            Ora, uma noite, como terminamos indo um pouco longe demais, caminhando ao longo do rio, a chuva nos surpreendeu. Ela sentiu frio.

            No dia seguinte, uma pneumonia se declarou. Oito horas mais tarde, ela expirava.

            Durante as horas de agonia, o espanto, a estupefação, impediram-me de compreender melhor, de refletir melhor.

            Quando ela morreu, o desespero brutal me aturdiu de tal modo que eu não pensava mais. Eu chorava.

            Durante todas as horríveis fases do enterro, minha dor aguda, intensa, era ainda uma dor louca, uma espécie de dor sensual, física.

            Depois, quando ela partiu, quando ela foi enterrada, meu espírito de repente iluminou-se eu passei por toda uma série de sofrimentos morais tão insuportáveis que o até mesmo o amor que ela me havia dado custava caro a um tal preço.

            Então entrou na minha cabeça esta idéea fixa:

            “Não a verei mais.”

            Quando refletimos nisso durante um dia inteiro, uma demência nos domina! Imagine! Você encontra uma pessoa que você adora, um ser único, pois em toda a extensão da terra não existe um outro parecido. Este ser se entregou a você, criou com você esta união misteriosa que chamamos de Amor. Os olhos desta pessoa lhe parecem mais vastos que o espaço, mais encantadores que o mundo; olhos claros que irradiam ternura. Este ser vos ama. Quando ele vos fala, sua voz derrama um mar de felicidade.

            E de repente ele desaparece! Imagine! Ele desaparece não somente para você, mas para sempre. Está morto. Você compreende esta palavra? Jamais, jamais, em nenhuma parte, este ser não existirá mais. Você nunca mais verá seus olhos, nunca mais ouvirá sua voz; nunca mais, entre todas as vozes humanas, uma voz igual pronunciará da mesma maneira as palavras que a voz dela pronunciava.

            Nunca mais renascerá rosto semelhante ao dela. Nunca mais, nunca mais! Preservamos as formas das estátuas; conservamos os moldes que refundem objetos com os mesmos contornos e com as mesmas cores. Mas este corpo e este rosto, nunca mais reaparecerão sobre a terra. E no entanto nascerão milhares de criaturas, milhões, bilhões, e bem mais ainda, e entre todas as mulheres futuras, nunca mais a mesma poderá ser encontrada. É possível? Ficamos loucos pensando nisso.

            Ela viveu durante vinte anos, e desapareceu para sempre, para sempre, para sempre!

            Ela pensava, sorria, ela me amava. Nada mais. As moscas que morrem no outono são como nós na criação. Nada mais! E eu pensava que seu corpo, seu corpo jovem, ardente, tão doce, tão branco, tão belo, iria apodrecer-se no fundo de um caixão sob a terra. E onde estaria sua alma, seu pensamento, seu amor?

            Não vê-la mais! Não vê-la mais! A ideia de seu corpo decomposto me atormentava que eu no entanto poderia talvez reconhecê-lo. E eu quis olhá-lo mais uma vez!

            Parti com uma pá, uma lanterna, um martelo. Saltei por cima do muro do cemitério. Encontrei o buraco de sua sepultura; ele ainda não tinha sido completamente fechado.

            Desenterrei o caixão. E levantei uma tábua. Um odor horrível, a exalação infame das putrefações desprendeu-se de figure. Oh! Seu leito, perfumado de íris!

            Abri o caixão, no entanto, e coloquei dentro minha lanterna alumiada, e eu a vi. Seu corpo estava azulado, deformado, horrível! Um líquido negro tinha escorrido de sua boca.

            Ela! Era ela! Um horror invadiu minha alma. Mesmo assim estendi os braços e peguei seus cabelos para aproximar diante de mim seu rosto monstruoso!

            Foi então que fui preso.

            Durante toda a noite conservei como se conserva o perfume de uma mulher após um abraço amoroso, o odor imundo desta podridão, o odor de minha bem amada!

            Façam de mim o que quiserem.

            Um estranho silêncio parecia pairar no ar. Parecia que ainda se esperava alguma coisa. Os jurados se retiraram para deliberar.

            Quando eles retornaram, após alguns minutos, o acusado parecia não ter temor algum, e nem mesmo pensamento.

            O presidente, com as fórmulas habituais, anunciou-lhe que os juízes o declaravam inocente.

            Ele não fez gesto algum, e o público o aplaudiu.

(29 de julho de 1884)

* Título original: “La tombe”. Tradução: Jaimir Conte

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